Ed. 129 - Almas em Chamas
RONA SHARON
CAPÍTULO I Londres, 1817 Izabel Aubrey respirou fundo e subiu os degraus da frente da Lancaster House. A residência particular do conde de Ashby situava-se em Park Lane, a região mais nobre de Mayfair. Durante anos passara por ali, sabendo que ele se encontrava em algum lugar do continente europeu, arriscando a própria vida, lutando contra Napoleão. Então, dois anos antes, logo após a batalha de Waterloo, soubera que o conde havia voltado. Com o coração acelerado, bateu a aldrava de metal contra a porta. Um mordomo gorducho atendeu pouco depois. - Bom dia, senhorita. Em que posso ajudá-la? Izabel sorriu. - Bom dia. Vim falar com o seu senhor. O mordomo sacudiu a cabeça calva. - Milorde não recebe visitas, senhorita. Desculpe-me e tenha um bom dia. - A porta foi batida suavemente na cara de Izabel. Decepcionada, ela recuou. Havia se preocupado tanto em disfarçar as emoções que não lhe ocorrera que Ashby poderia recusar-se a vê-la. O conde se recusava a ver qualquer pessoa, não especificamente ela. - Não é melhor voltarmos, senhorita? - indagou Lucy, a criada, lá da calçada, onde aguardava obediente. Izabel olhou para trás. Com exceção de um vendedor de frutas, a rua estava vazia. Ainda era cedo para as pessoas terem deixado suas camas macias. Porém precisava estar atenta aos madrugadores dementes que costumavam cavalgar pelo parque. - Vamos ter problemas se alguém nos vir nos degraus do Gárgula - acrescentou a aflita criada, olhando para os lados. - Por favor, não o chame assim. Milorde merece a nossa piedade, não o nosso escárnio. Lucy tinha razão. Se os rumores de que ela fizera uma visita pessoal ao Gárgula se espalhassem, a mãe teria um ataque, e o irmão mais velho, o visconde de Stilgoe, a casaria com o primeiro homem com quem Izabel dançasse a valsa. Havia esgotado todo o seu repertório de desculpas para justificar seu comportamento impróprio, quando rejeitara cinco pedidos de casamento. Pense! Ordenou a si mesma. Deve haver um modo de chegar até o conde. De repente, uma idéia lhe veio à mente. Era um tanto audaciosa, mas parecia ser seu único recurso. Enfiou a mão na bolsa, tirou um lápis e um elegante cartão de visita, que, além de conter seu nome, exibia o título da sua atividade como diretora da Sociedade das Mães, Irmãs e Viúvas de Guerra. Escreveu uma mensagem curta no verso e bateu novamente. O mordomo apressou-se em abrir. - Por obséquio, entregue isto ao seu senhor e peça-lhe que leia a mensagem que escrevi - instruiu, antes que o homem fechasse a porta pela segunda vez na sua cara. - A senhorita não é a primeira jovem que vem procurá-lo. Ele não quer ver ninguém. Sinto muito. Izabel enrijeceu. - Eu não sou uma das... amiguinhas dele. Milorde era amigo de meu irmão e seu superior. Ele me receberá. Por favor, entregue-lhe o cartão. O escrutínio do mordomo vagueou entre Izabel e a recatada criada de pé, alguns passos atrás. - Certo. Falarei com milorde. - A porta se fechou novamente. Izabel esfregou as mãos. Jamais poderia imaginar, nem em seus piores pesadelos, que o formidável lorde, comandante do 18o Regimento de Cavalaria, se resignasse à triste condição de um monge. Que um ferimento o forçasse a um absurdo isolamento. Isso era... inconcebível. O Ashby que ela conhecia tão bem era valente, encantador, forte, divinamente bonito e também muito rico, o que por si só era suficiente para que as pessoas ignorassem uma simples deformação facial, por pior que fosse. Mas, pelo visto, as incontáveis virtudes não eram o bastante para ajudá-lo a superar seu infortúnio. O mordomo reapareceu minutos depois. - Entre, srta. Aubrey. Milorde a receberá. Feliz pelo sucesso, Izabel caminhou para o interior da casa. Lancaster House era uma enorme construção em tons de azul e prata, com um magnífico lustre que pendia do teto, valorizando o ambiente aristocrático. Então, era ali que ele vivia, observou, excitada. Onde vinha se escondendo do mundo durante os dois últimos anos. Tinha curiosidade de saber como um homem tão vigoroso quanto Ashby ocupava seu tempo confinado dentro de uma casa, sozinho. Após deixar Lucy no salão de entrada, Izabel seguiu o mordomo até a sala de visitas da frente. Uma coleção de esculturas em uma estante de vidro chamou sua atenção: pequenos macacos habilmente entalhados em madeira. Um deles possuía espantosa semelhança com o general Wellington. Outro era a imagem perfeita de lorde Castlereagh. - O Gárgula é um artista. - Ela sorriu, erguendo um macaco rechonchudo que a fez lembrar do príncipe George. - E tem um senso de humor perverso. - O Gárgula não aprecia estranhos que mexem em seus objetos pessoais. - A escultura lhe foi arrancada da mão e recolocada na prateleira de vidro. - Pediu para me ver? - Um homem magro, de fisionomia severa e cabelos grisalhos, se postou na frente de Izabel. Nem de longe lembrava o hussardo que Will trouxera para jantar anos antes. Izabel sentiu um aperto no coração. Santo Deus! - O que acont... - Tampando a boca depressa, curvou-se em uma reverência educada. O que a guerra fizera àquele homem? Será que sua mente havia glorificado a imagem dele durante todos aqueles anos? Até mesmo o casaco desbotado era grande demais para a sua constituição esquálida. Melancólica, Izabel procurou uma cicatriz na face do lorde. Não havia nenhuma. - Há algo que eu possa fazer pela... senhorita? - Aubrey, milorde. A irmã de Will. - Pelo visto, ele não a reconhecera, pensou. Então, por que permitira que ela entrasse? - Aubrey... Major William Aubrey? Oh, sim, claro que me lembro. Por favor, aceite minhas mais profundas condolências pela perda de seu irmão, senhorita. Ele era um excelente oficial. Algo estava terrivelmente errado. Will fora o melhor amigo do conde durante anos, e isso era tudo que ele tinha a dizer? - Leu... o meu cartão, milorde? - Izabel perguntou num tom delicado. Ninguém além de Ashby entenderia ao que ela aludiu com tanta coragem. Porém seu anfitrião parecia totalmente alheio. - Seu cartão? Ele piscou. De repente, a verdade se abateu sobre Izabel como um raio: aquele homem era um impostor. Por que motivo inventaria um ferimento que não existia para justificar seu isolamento da sociedade? Isso significava que Ashby estava morto, enterrado em algum campo frio na Bélgica, ao lado do irmão dela. E aquele vilão assumira a identidade do oficial e vivia em sua propriedade! Tinha de sair dali imediatamente. Alguém precisava saber daquela farsa. - Obrigada por ter me recebido, milorde. Mas me lembrei que tenho um compromisso. Foi um prazer. Nesse instante, as portas duplas se abriram, revelando a figura do mordomo. Este, ao perceber a expressão de Izabel, entrou e fechou as portas. - Srta. Aubrey, somos os criados de milorde - disse num tom tranqüilo. - Oh, Phipps, seu idiota! - disparou o impostor. - Não podemos insistir nessa tolice. Você e suas idéias estúpidas. - Teria sido uma idéia brilhante se você não fosse um miserável imbecil! - replicou o mordomo, exasperado. - Tudo que precisava fazer era descobrir o que ela queria. - Como eu podia conseguir isso? Por acaso sou algum... detetive? O olhar afiado de Izabel ia do mordomo rechonchudo ao seu cúmplice magrelo. Então uma idéia se formou em sua mente. Um detetive... Era com quem ela deveria falar! O impostor levou um lenço à testa e limpou o suor. - Tudo que ela mencionou foi um cartão. Phipps tirou o cartão do bolso do colete e leu a mensagem curta. - O que significa isso? - perguntou, fitando-a, intrigado. - Por que não pergunta ao seu patrão? - Olhando para as portas, Izabel gritou: - Lucy! Vá falar com Stilgoe! Diga-lhe que volte com a polícia! Este homem é um impostor! - Sim, senhorita! - Não a deixe escapar! - Phipps ordenou ao cúmplice e correu para fora. Detida pelo impostor, Izabel ouviu a porta da frente se abrir e depois fechar com um estrondo. - Ele está bloqueando a porta, senhorita! - lamentou a criada. - O que faço? - Seja rápida! - exclamou Izabel. - Enfie a ponta da minha sombrinha entre as costelas dele! - Ai! - ganiu o mordomo no foyer. - Pequena coisa sórdida! - Não funcionou! - anunciou Lucy. - O que devo tentar agora? Izabel fitou o impostor. O homem encolheu os ombros, na defensiva. - Lucy, no canto junto à entrada, tem um vaso de flores. Esmague o crânio dele! - Dudley, faça-a ficar calada - implorou Phipps. - Estou sendo assassinado aqui fora! Quando Dudley espiou para fora, Izabel arremessou a bolsa em sua cabeça. - Vilões odiosos! Apodrecerão em Newgate por isso! - Pela abertura da porta, Izabel viu Phipps se encolher enquanto Lucy erguia o vaso para acertá-lo. Então, ouviu Dudley tropeçar atrás dela. Estava quase chegando lá, quando um terrível latido congelou-os. A criada derrubou o vaso de flores. - Quieto, Heitor! - ordenou uma voz grave vinda da galeria. Com a respiração ofegante, Izabel ergueu a cabeça. O lustre bloqueava-lhe a visão, mas através das barras esculpidas do corrimão, viu um cão de caça preto sentado, vigilante. - Dudley, você está usando o meu casaco? - a voz de Ashby ecoou no recinto. - Sim, milorde, mas eu posso explicar... - Espero que sim. Phipps, afaste-se. Deixe as mulheres passarem. - O mordomo dirigiu os olhos desolados à silhueta austera. - Milorde, eu... - Agora, Phipps! - O som de couro rangendo reverberou no ar quando o conde começou a caminhar. Izabel tremeu. Aquela era a sua chance. - Lorde Ashby, posso falar-lhe em particular por um momento? Apenas para me certificar de que não se trata de nenhum artifício e que o senhor realmente... Ele estacou e a vislumbrou através dos pendentes do lustre. - Espere-me na sala de visitas - disse após uma longa pausa. - Encontro-a daqui a alguns instantes. Os saltos das botas de couro bateram de encontro aos tacos enquanto ele deixava a galeria, dirigindo-se ao interior do palacete. Phipps fitou Izabel com uma expressão arrependida. - Srta. Aubrey, imploro que me perdoe. - Eu também. - Dudley sacudiu a cabeça com força, o enorme casaco caindo-lhe pelos ombros. - Não tivemos a intenção de amedrontá-la - continuou o mordomo. - Nem tampouco à sua crida - disse Dudley. - Milorde não teria concordado em vê-la se não tivéssemos feito algo... - Drástico. Pedimos sinceras desculpas. - Os dois homens a encararam suplicantes. - Espero que também se desculpem com Lucy - disse Izabel, fitando os dois desajustados. - Faremos isso imediatamente - prometeram em uníssono. Izabel voltou à sala de visitas. Caminhou de um lado para outro, nervosa. De repente, ouviu passos junto à entrada. Prendeu o fôlego, esperando para ver se... Ele surgiu, e o coração de Izabel disparou. Usando uma máscara de cetim preta, o conde se encostou no batente com os braços cruzados sobre o peito. Os cabelos escuros e vastos caíam-lhe em comprimentos desiguais sobre os ombros poderosos. A camisa de cambraia branca revelava a pulsação na base do pescoço e os músculos bem delineados que formavam seu tórax largo. Calças pretas e justas moldavam as coxas esguias, acentuando os tendões flexíveis desenvolvidos por anos de equitação. Alto e robusto, lorde Ashby exalava virilidade por todos os poros. Izabel curvou-se numa pequena reverência, seus lindos olhos azuis arregalados de temor. Anos antes diziam que as mulheres desmaiavam quando o conde entrava em um salão de baile e que era o único cavalheiro disputado nos cartões de dança. Na época, ainda uma menina, ela não entendera isso direito, mas agora havia se tornado óbvio. Até mesmo mascarado, a face morena a atraía como um ímã. Ashby era um homem que poderia ter qualquer coisa e qualquer pessoa que quisesse. Contemplando-a com os olhos semicerrados, deslizou o olhar desde o chapéu amarelo, que moldava os cachos dourados, até a bainha do vestido da mesma cor. Izabel percebeu que a memória havia lhe pregado uma peça: os olhos dele não eram azuis; devia ter sido influência do uniforme que trajava. Na realidade, eram de um tom incomum de verde-marinho claro. - Diga o que quer e depois suma daqui - disse o conde. Mas ela não conseguiu emitir uma palavra. - Já entendi. - Os lábios sensuais se curvaram cinicamente sob a máscara. - Bem, agora que já se certificou e satisfez a sua curiosidade, adeus. Ele cruzou a sala com cinco passadas largas, e o cachorro preto o seguiu. Com um estalido breve, fechou a cortina pesada da janela que dava para a rua, deixando o recinto na penumbra. Izabel tremeu só de imaginar o que Ashby enfrentava a cada dia no espelho. Devia ser de fato terrível para o conde se fechar para o mundo. - Milorde, eu represento a Sociedade das Mães, Irmãs e Viúvas de Guerra. Somos uma organização de caridade, trabalhando no auxílio a mulheres destituídas que perderam seus provedores masculinos na guerra. Lojistas, ferreiros, fazendeiros, que deixaram parentes dependentes, esposas e filhos. Hoje, essas pobres almas não têm ninguém. Nosso objetivo é ajudá-las a... - Não estou interessado em seus objetivos, senhorita. Tenha um bom dia. Ashby se dirigiu à porta. Ao passar por ela, seu braço foi seguro. Músculos de aço contraíram-se sob os dedos de Izabel. - Mas deveria estar, milorde. Eram entes queridos das famílias dos homens que o senhor comandou. Soldados valentes que morreram no campo de batalha. O olhar de Ashby deslizou ao longo do próprio braço e alcançou os olhos de Izabel. - E daí? Ela o libertou. - O senhor era responsável pelos homens que essas mulheres amavam. Não acha que eles poderiam esperar que fizesse... algo... para ajudar suas famílias? - Meu dever era destruir. E basta. O aroma do sabão de barba chegou às narinas de Izabel. O cheiro fresco a fez pensar em florestas e clareiras no mato. Recusando-se a desistir, sustentou-lhe o olhar. - Talvez se soubesse o nome de meu irmão... - Eu sei quem você é, Izabel. O coração dela disparou. - Sabe? - perguntou, repentinamente incapaz de respirar. Esperava que ele a achasse... um pouco atraente, pelo menos para alimentar seu ego feminino. Quando menina, era louca por aquele homem, conhecido na época como um sujeito perverso. Um notório libertino, jogador e perseguidor de mulheres, mas Will dizia que a maior parte da atenção que o amigo atraía estava ligada ao fato de ter herdado um título muito cedo na vida. Entretanto, na opinião pessoal de Izabel, era o caráter sem igual de Ashby que o fazia diferente dos outros. - Você cresceu - murmurou ele. - A última vez em que a vi, ainda usava saias azuis curtas e cachinhos na cabeça. Um rubor tingiu as faces de Izabel. - Isso foi há sete anos. - A última vez em que o vira, Ashby trajava a farda do regimento: calça branca, jaqueta curta azul, do tipo dólmã, com tranças douradas sobre o tórax e uma peliça atirada sobre o ombro. Deslumbrante. Na ocasião, Izabel contava apenas quinze anos e se apaixonara completamente. - O senhor ficou com Heitor. - Prometi que ficaria. - A máscara acetinada preta ocultava-lhe parte da face, mas revelava a mandíbula angulosa, o queixo e a boca, a qual Izabel desejou saber se era tão macia quanto parecia. Ela desviou o olhar, se abaixou e soltou um assovio melodioso. O grande cachorro se ergueu. Decidindo investigar, aproximou-se para cheirar-lhe a mão. - Olá, Heitor. Lembra de mim? - perguntou, acariciando a pelagem brilhante do animal. - Já fomos grandes amigos quando você era filhote. - O cão latiu, abanando o rabo. - Meu Deus, você cresceu. Está bonito, grande e forte. - Izabel ergueu a cabeça, procurando o olhar inescrutável de Ashby. - Vejo que tem sido muito bem cuidado. - Tenho, sim - respondeu o conde, embora ambos soubessem que ela se dirigia ao cachorro. - Heitor salvou a minha vida duas vezes. Somos praticamente irmãos. - Ele lhe ofereceu a mão. Com o coração acelerado, Izabel apoiou-se na palma morna e forte e permitiu que o conde a ajudasse a se erguer. Ficaram de pé muito próximos um do outro, cercados pela penumbra criada pelas pesadas cortinas. - Sinto muito por Will. Prometi que o traria vivo. E falhei. - Também sinto muito. O que aconteceu ao senhor em Waterloo? - Sorauren. - Ashby respirou fundo. - Meu rosto ficou praticamente destroçado na batalha de Sorauren. - Isso foi há quatro anos. - Izabel só descobrira quando as pessoas começaram a comentar, referindo-se a Ashby como o Gárgula de Mayfair. - Will nunca mencionou... - Que fiquei horroroso? Seu irmão era um santo. Jamais faria fofocas a respeito dos amigos. Fazia-os se sentirem humanos, até mesmo quando não lhes restava mais nada de humano. - Lorde Ashby, o senhor é o homem mais amável, mais suave, mais generoso que já conheci. Não acredito que tenha perdido a sua humanidade. - Você se surpreenderia. As palavras severas lhe causaram um desagradável calafrio. - Sei o que é desolação e desespero, milorde, mas descobri que ajudando outras pessoas menos afortunadas... encontramos cura para nós mesmos. - Fico emocionado que tenha encontrado o seu caminho dourado, mas o que é bom para você pode não ser para os outros. - Alguma vez viu uma criança sorrir de alegria ao ver uma refeição quente ou quando está aquecido ou vê a mãe sorrindo porque ele a ajudou de algum modo? Eu e o senhor temos muito a dar. É nosso dever fazer isso. Ashby se calou por um momento. - Que tipo de ajuda quer de mim? O tom não garantia nada, mas ele estava curioso, pensou Izabel, esperançosa. - Nosso Conselho de Caridade contratou um advogado a fim de preparar uma proposta para serem pagas compensações anuais aos parentes das mulheres e crianças que mencionei, agora privadas de seu sustento. - Quando diz nosso Conselho, refere-se a si mesma? - Sra. Íris Chilton, sra. Sophie Fairchild e eu, sim. - Continue. - Estamos procurando um cavalheiro influente para patrocinar a nossa causa junto ao Poder Legislativo. Como membro da Câmara, o senhor... - Não participo das sessões da Câmara dos Lordes há muito tempo. Nem pretendo voltar a participar. Logo, não sou o... herói que procura. Mais alguma coisa? - Com o seu poder e influência e com as suas ligações no Gabinete de Guerra, poderia contribuir muito mais com a nossa causa do que qualquer outro sem precisar participar das sessões do Parlamento. - Está errada, Izabel - o conde respondeu solenemente. - Não tenho nada a oferecer a ninguém. Uma imagem de Ashby e Will rindo juntos provocou nela um aperto no coração. - Talvez... pudéssemos ajudar um ao outro - ofereceu com voz suave. A mandíbula de Ashby se contraiu. - Não estou precisando de ajuda. - Não é a única pessoa na Inglaterra que ficou com uma seqüela de guerra, milorde. - Como me ajudaria? Minha vida acabou. Quando seus olhares se encontraram, Izabel soube com certeza que ele se recordava de tudo que acontecera naquela noite no jardim da casa dela, havia muito tempo. A intensidade do olhar fixo a amedrontou e a emocionou ao mesmo tempo. - Uma vez me falou que considerava Will um irmão. Como irmã de Will, eu ficaria feliz... - Não - cortou Ashby, encarando-a como se Izabel o tivesse esbofeteado. - Não sou um dos seus malditos casos de caridade! Se eu fosse o homem que era quatro anos atrás, você estaria seriamente comprometida. Izabel vacilou, surpresa pela força da fúria de Ashby. - Perdoe-me. Eu jamais... - Vá para casa e não volte mais aqui. O Gárgula não merece nem a sua piedade nem o seu escárnio. - Dito isso, o lorde deixou a sala sem olhar para trás. - Eu não os instruí para não deixar ninguém entrar nesta casa? - O berro enfurecido faria os ratos se enfiarem nos buracos das paredes, se houvesse algum. Furioso, Ashby subiu os degraus resmungando. Maldição! Por que Izabel tinha que aparecer na sua vida novamente? Caminhando apressado atrás dele, Phipps ofegou. - Ela me ameaçou com danos corporais, milorde. O conde virou-se tão abruptamente que o mordomo quase caiu pelos degraus abaixo. - E outra coisa, já não lhe disse para manter as cortinas fechadas o tempo todo? Phipps agarrou-se ao corrimão. - Sim, milorde, mas eu não podia receber a srta. Aubrey em uma sala escura, podia? - Em primeiro lugar, não a devia ter recebido, seu... intrometido miserável! - Com as têmporas latejando, Ashby alcançou o segundo andar e dirigiu-se aos seus aposentos. Precisava destruir algo, qualquer coisa que lhe tirasse a imagem de Izabel Aubrey da cabeça. Cristo, como ela havia mudado! Quase não a reconhecera. A pequena Izzy era uma boneca bonita com olhos brilhantes e fitas no cabelo. A mulher adulta que encontrara havia pouco era uma... destruidora de corações. Talvez o termo não fosse o elogio mais adequado para um cavalheiro fazer a uma dama, mas era exatamente o que pensara diante daquela beldade. O delicado rosto oval emoldurado por adoráveis cachos dourados, os lábios rosa e macios e um corpo desejável. Não podia acreditar que ela tivesse sugerido que a considerasse uma irmã. Não o vira como irmão naquela noite, quando ele ainda era jovem e perfeito. Maldição! Ashby sentiu-se uma relíquia, um velho danificado e sem conserto, quando tudo que tinha vontade de fazer era terminar aquele beijo que Izabel havia começado sete anos antes. Arrancou a máscara da face e atirou-a por sobre o ombro, sabendo que sua "sombra" estaria ali para pegá-la. - Há uma razão específica para me seguir dentro da minha própria casa, Phipps? Posso lhe assegurar que sou perfeitamente capaz de encontrar o caminho sozinho. - Gostaria de esclarecer, se me permite, que Dudley era totalmente contra a idéia de se passar pelo senhor, milorde. O conde bufou, desgostoso. - Onde, diabo, está o meu intrépido valete? - Foi se esconder. - Ótimo. Mantenha-o lá. - Entrou no quarto, caminhou até a cômoda e abriu uma gaveta. Revistou-a, mas não achou o que procurava. Phipps tossiu. Aborrecido, o conde fitou o criado. - Por que fica aí parado, ofegando? - Eu estava em muito melhor forma na época em que recebíamos visitantes, milorde. - Estaria em muito melhor forma se em vez de engendrar farsas ridículas, administrasse esta casa com mais competência. - Ashby abriu a segunda gaveta e continuou sua busca. Observando o patrão desmontar a cômoda, Phipps disse humildemente: - A maioria dos homens ficaria mais feliz depois de receber a inesperada visita de uma linda borboleta, milorde. - Uma borboleta! - Ashby curvou os lábios num sorriso malicioso. - Ela e a criada quase acabaram com você. O mordomo encolheu os ombros. - Dei motivos para tal. - Dá-me motivos todos os dias e, ainda assim, não o agrido com sombrinhas e vasos de flores. Porém estou considerando seriamente a possibilidade de demiti-lo. - Oh, não posso nem sequer pensar em abandoná-lo, milorde. - Que pena. - Incapaz de localizar o que estava procurando, Ashby dirigiu-se ao armário e curvou-se para vasculhar algumas caixas empilhadas no fundo. Abriu uma após outra, retirando gravatas novas que nunca usara e atirando-as por sobre o ombro. - A reação da srta. Aubrey ao descobrir a farsa... Bem, ela parecia bastante revoltada. - Obviamente, acreditou que você e Dudley eram dois criminosos. - Foi o que pensei, milorde. Deveria ter ficado assustada, mas, em vez disso, ficou furiosa. E, bem... notei que trajava luto. - Izabel perdeu o irmão há pouco tempo. Will era muito querido para ela. Eu era o seu melhor amigo, além de seu superior. - Então, por que a despachou... em lágrimas, milorde? O que o mordomo não sabia era que ficara tentado a prendê-la ali e a engolir a chave, mas estaria condenado a passar o resto da vida atrás de uma máscara. A doce e bondosa Izabel, que recolhia filhotes de cachorro abandonados das ruas, cairia desmaiada se o visse sem a máscara. Rangendo os dentes, Ashby encarou o criado. - Onde, diabo, você pôs aquilo, Phipps? - O que está procurando, milorde? - Você sabe muito bem! - No baú embaixo da cama, onde guarda sua farda e medalhas. Mas acha prudente, milorde? A última vez em que... - Eu decido o que é prudente ou não nesta casa. Agora suma! - dizendo isso, se ajoelhou em frente à cama, puxou o pesado baú e o abriu. Não o tocava havia dois anos e suas mãos estavam trêmulas. - Está embrulhado no casaco de montaria, milorde. Ashby ergueu-se, virou-se para Phipps e o empurrou porta afora, fechou-a com um chute e passou a chave na fechadura. O homem maluco pensava que suas obrigações incluíam tarefas de ama. Durante toda a sua vida tinha sido assim. Criados que o mimavam, cuidavam das suas necessidades e nunca sabiam o momento certo de se retirar. Exalando um profundo suspiro, o conde sentou-se na cama e encarou o baú aberto. No interior, sua farda se encontrava dobrada, juntamente com o quepe, o sabre, a pistola e as medalhas. A visão suscitou-lhe uma gama de recordações pouco agradáveis, a maioria... insuportável. - O que exatamente está querendo encontrar? - perguntou a si mesmo. A última vez em que havia cometido aquela idiotice autodestrutiva, acabara quebrando todos os espelhos da casa, com exceção de um... o espelho de mão da mãe. Afundou o braço nas dobras do casaco de montaria, e lá estava. Retirou-o, ainda não ousando encará-lo. Três cirurgiões diferentes haviam se recusado a operá-lo, afirmando que o procedimento lhe custaria a vida. Apenas um assistente de um cirurgião de campo, um índio que Will encontrara no acampamento de guerra, concordara em realizar a cirurgia. Fechando os olhos, tentou reprimir a velha dor e as auto-recriminações. Will lhe salvara a vida miserável, e o que ele fizera em troca? A lembrança de um tiro de pistola ecoou em seu cérebro. Estremeceu, a angústia dilacerava-lhe a alma. Talvez fizesse parte da tortura ver a irmã de Will novamente. Izabel era uma réplica do único e verdadeiro amigo que ele tivera na vida. Como poderia ajudá-la quando mal podia ajudar a si mesmo? Abriu os olhos e encarou o Gárgula no espelho. - Vá para o inferno! - gritou para a imagem refletida. Nesse instante, ouviu um ruído na porta. Olhou a tempo de ver um cartão sendo deslizado para dentro. O elegante papel encorpado continha o nome de Izabel e sua função como diretora de uma instituição de caridade. - Olhe para a mensagem no verso - sugeriu Phipps do lado de fora do quarto. Se Ashby não o conhecesse tão bem, juraria que a peste havia infiltrado olhos mágicos na porta. Soltando um resmungo de raiva, virou o cartão e sentiu um súbito aperto no coração. Em uma caligrafia clara e floreada, estava escrito: Preciso das suas habilidades especiais.
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